sábado, 10 de maio de 2008

ÁLCOOL, FUMO E CAFÉ




Não mais o álcool,
não mais o fumo,
de azulado rumo,
nem o café.
Resta-me a fé
num áureo aprumo.
Sei como é.

Os nervos cansam
e vão partir-se.
A voz de Circe
ouço-a ainda...
E mais mais linda,
ainda me chama.
e embora lama,
quero-lhe ainda.

Mas quero quietos
os meus sentidos,
comprometidos
em ascensões.
As sensações
hei-de chamá-las,
purificá-las
com comunhões.

Resto sedento,
desalentado...
Quem a meu lado
no funeral?
Negro portal
hei-de quebrá-lo.

Cantar de galo
sobre o cavalo.

(As mãos daquela
que se dizia
minha amiga
já se sumiram...
Vagas sorriram
outras derrotas...
Ignotas rotas
as poluíram...)

E as tardes brancas
hei-de esposá-las.
Não quero galas
na minha boda.
Bailem em roda
só as crianças
ingánuas danças
à sua moda.

Se um homem cumpre
o seu destino,
não vão sem tino
mexer na obra.
É como a cobra.
que fere o seio
quem, de permeio
altera a obra.

De qualquer forma
sigo o meu rumo,
num áureo aprumo,
cheio de fé.
Sem o café,
sem o tabaco,
cortar o opaco
sei como é.

Saul Dias (1902-1983) - irmão de José Régio

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